ProfileLauro JantschBlogLists Tools Help

Lauro Jantsch

Occupation
January 26

Planejamento Familiar

Lauro José Jantsch  -  Professor e Doutor em Biociências

            Prefiro esta expressão a “controle de natalidade”. Esta cheira a autoritarismo, ou ditadura. É assunto complexo e, como tal, interdisciplinar e precisa ser profundamente estudado e discutido. É comum atribuir-se à Igreja Católica, ao Estado, a falha neste assunto. Apesar de minhas convicções, não me acho dono da verdade. Como biólogo e naturalista quero contribuir com algumas reflexões retiradas da própria natureza.

             Recentemente, estudos científicos encontraram correlação entre o número de filhotes das leoas e a abundância de alimento. Constataram que, nas savanas africanas, o número de filhotes por ano varia de acordo com a quantidade de alimento disponível: se este é farto elas geram 2 ou 3 filhotes numa cria, se o alimento é escasso geram 1 filhote ou até nenhum naquele ano. Os cientistas concluíram que há um planejamento familiar das leoas levando em conta as garantias ambientais de segurança e alimento.

             Em várias espécies de águias já se observou um fenômeno parecido. Em épocas de condições boas elas criam 2 filhotes por ninhada. Em épocas de carestia criam 1 filhote. Neste caso, os mecanismos variam: ou põem 3 ovos e 1 dos filhotes serve de alimento aos outros, ou põem 2 ovos e 1 filhote é sacrificado para salvar o outro.

               Em nosso meio, conhecemos o caso das corujas. Antes do acasalamento fazem um levantamento rigoroso, num raio de uns 10km, do número de ratos disponíveis. Caso encontrem uma população satisfatória, providenciam o ninho e os filhotes. Caso o alimento seja escasso, procuram outra área onde a família possa procriar e se manter.

               Nestes casos, já bem estudados, e noutros parece que os animais fazem um planejamento familiar. Parece saberem que a superpopulação vem em detrimento da própria espécie.

               Na espécie humana penso que a família bem constituída, tem no planejamento um dos requisitos do seu sucesso. O contrário também é verdadeiro. O casal precisa discutir, planejar o número de filhos, pois esta preocupação já demonstra que os filhos são amados mesmo antes do nascimento. E os filhos indesejados, normalmente, são problemáticos para si, para os pais e para a sociedade.

              Cabe aos formadores de opinião, Igrejas, Estado, mídia, Universidades, escolas, psicólogos, médicos, convencerem as pessoas da necessidade de um planejamento familiar como base de uma sociedade feliz.       

January 20

Muito além do Nepotismo

Lauro José Jantsch  -  Professor e Doutor em Biociências 

  

                 A própria evolução da sociedade provocou e condenou o nepotismo. Apenas os legisladores ainda resistem. Penso que este assunto já foi bastante discutido e já está resolvido, quero avançar.

               O que a gente constata é o seguinte: depois que a pessoa entrou no meio político ela está feita. Ela passa o resto da vida entre candidatura e empregos de altos salários.

               A coisa funciona mais ou menos assim, com poucas variantes. O sujeito se candidata a algum cargo político. Suponhamos que se eleja. Como, na maior parte dos casos, não tem qualquer capacidade legislativa ou administrativa, não vai fazer nada. Sem projetos, sem plenário, sem comissões. Mas, está em Brasília e, durante 4 anos, faz “amigos” e clientelismo. Não tendo feito nada para os eleitores, não se reelegerá. O povo elegerá uma “novidade”. O eleitor pensa que o derrotado está “morto”, acabado.

O tempo passa, um ano, dois anos, então, aparece um problema em alguma estatal, autarquia, conselhão ou agência reguladora. Quem aparece para dar explicações? É o nosso derrotado nas urnas, aquele incompetente.

               Durante os 4 anos após a derrota eleitoral ele passa usando o cargo público para fazer o que lemos em S. Lucas: “Grangeai amigos com as riquezas da iniquidade, porque quando vierdes a precisar, vos recebam”.

               É claro que, na próxima eleição, estes clientes, estes “amigos” o reelegerão. É claro, também, que a “novidade” não vai se reeleger. O clientelista vai ocupar o lugar dele e ele vai fazer o seu clientelismo. E assim vão se alternando, trocando de cargos, mas sempre os mesmos. As brigas são, apenas, para enganar a torcida.

               Por não terem qualquer preparo técnico estas sanguessugas constituem uma das causas do atraso deste país. Existem casos em que o sujeito nunca foi eleito para nada, apenas se candidatou para entrar no circuito.

               Só abandonam a “ação entre amigos” na morte, ou melhor, alguns ainda conseguem uma vaguinha em algum tribunal. Este é o país das sesmarias. Os efeitos deste loteamento de cargos entre pessoas sem qualquer preparo são muito mais funestos do que o nepotismo.

December 07

Qualidade no Ensino

Lauro José Jantsch - Professor e Doutor em Biociências

 

                Ultimamente várias instituições particulares de ensino fecharam suas portas. Muitas outras estão em dificuldades de matrículas. Quais as razões disso? Algumas causas são óbvias, entre elas, a perda de poder aquisitivo da população, a diminuição do número de filhos nas famílias de classe média.

               No entanto, existe uma razão óbvia apenas para quem trabalha em educação. Muitas instituições particulares perderam aquilo que as diferenciava: a qualidade do produto. O investimento no produto ficou só no discurso. E o pior, o decréscimo na qualidade de ensino produziu rápidos resultados. O fruto deste nivelamento por baixo produziu uma sociedade permissiva, i. é., o cidadão só possui direitos e desconhece totalmente seus deveres. Nosso nível de exigência caiu tanto que aguardamos resignados 1h30min numa fila de banco, que aceitamos pagar impostos para morar às margens de um rio que é um esgoto a céu aberto, que perdemos todos os dias preciosas horas em congestionamentos de trânsito causados por carroças ou falta de sincronia de semáforos. Nosso nível crítico baixou tanto que aceitamos alguém dizer que a reforma da Previdência não vai prejudicar ninguém, mas o déficit vai diminuir e a arrecadação vai aumentar. Nossa cidadania chegou ao ponto de aceitar um Congresso Nacional caríssimo que não legisla e que só vota o que já vem “votado”.

               Essas são conseqüências da falta de um ensino plural e de qualidade. È muito triste e perigoso para uma sociedade perder opções de educação. Estamos diante de um problema de custo e benefício. Se as instituições particulares de ensino promoveram um nivelamento por baixo, os pais se perguntam: por que vou pagar por algo que posso ter de graça? Por que vou pagar para uma instituição que tem um professor apelidado de “turista”, outro de “escroto”, outro de “chimarrita” (toma chimarrão durante toda aula), outro que diz aos alunos: “o mal da escola são os alunos?” Por que um aluno vai pagar uma Universidade se, no dia de sua formatura, ele diz: “A primeira coisa que vou fazer é “deletar” tudo que aprendi aqui”. Ou como diz outra formanda: “Estou louca para sair daqui, pois os professores até podem saber bastante, mas a vivência humana aqui beira o zero.”

               Muitos pais fazem qualquer sacrifício para dar aos filhos uma educação diferenciada em sua qualidade, mas se negam a pagar por algo sem retorno.  

November 25

Discriminação

Lauro José Jantsch - Professor e Doutor em Biociências

 

Prezado SANT’ANA!

               Como sempre, colocaste o dedo numa gangrena triste e fétida da nossa sociedade: a discriminação por idade. Desde os 58 anos, hoje tenho 63, vivi dezenas de histórias incríveis de discriminação. Mas, quero fazer uma denúncia  para colocar mais gasolina nesta fogueira. Estou aposentado, tenho mais de 40 anos de magistério e pesquisa. Recebi convite para pesquisar nos EEUU e para participar de vários projetos de pesquisa no exterior. Tenho Mestrado e Doutorado. Depois de me aposentar, ouvi várias vezes que eu era um profissional caro demais (os professores ganham 15% a mais pelo doutorado). Uma Instituição estrangeira me contratou e dá graças a Deus de ter que pagar 15% a mais por um profissional de alto gabarito e grande rendimento. Sant’ana, a denúncia que deve ser feita é essa: para o ensino brasileiro nunca interessou a qualidade. Isso explica todo nosso atraso e nossas mazelas sociais.

Um abraço!

November 15

O Século da Inteligência

Lauro José Jantsch  -  Professor e Doutor em Biociências

 

              O cientista de renome internacional Francisco M. Salzano escreveu em ZH de 07/11/2005 manifestando suas preocupações em relação a não regulamentação da lei de biossegurança. O autor referiu-se a razões com as quais concordo e acrescento outras.

               Uma razão das pressões para não regulamentar a lei de biossegurança é que esse assunto, eminentemente técnico, foi transformado em assunto político. E, como sabemos, grande parte da intelectualidade brasileira está submissa a uma ideologia político-partidária contrária à transgenia.

               Outra razão é o despreparo de muitos políticos para opinarem sobre assunto de biossegurança. Afinal de contas, não elegemos um presidente para o qual basta a “escola da vida”?. Pergunto, quantos dos nossos deputados e senadores conhecem a estrutura do DNA ou sua função? Quantos sabem o que é um organismo transgênico? Durante os debates um dos senadores teve a humildade de dizer que iria estudar o assunto. Bela humildade, mas evidencia o despreparo em tal assunto.

               Outro entrave para que a sociedade pudesse pressionar a aprovação da regulamentação da biossegurança é que a maioria dos egressos das nossas universidades não fazem diferença entre uma conclusão científica e um palpite. Dias atrás um jornalista dizia diante de uma “conclusão” científica: “Pois é, diante destes assuntos, cada um tem seu palpite”. O assunto de transgenia ou célula-tronco não é para palpiteiros.

Vivemos no século da inteligência. Em qualquer setor da atividade humana é esta a característica moderna. Vejamos nos esportes brasileiros, aqueles que não apostam na inteligência não conseguem resultados: tênis, basquete e outros. Enquanto apostarmos em metodologias educacionais cujo fruto é a ignorância nunca seremos independentes. Está na hora, pois, de optar por métodos que ensinem nossas crianças a ler, escrever e pensar, optar por uma universidade onde realmente se produzem conhecimentos. Com os métodos presentes produzimos analfabetos funcionais e a maioria dos egressos da universidade sabe, apenas, copiar conhecimentos dos outros. Essa é a maior escravidão. Enquanto o Brasil não produzir ciência será um eterno escravo da inteligência estrangeira. Diante da situação atual da intelectualidade brasileira o futuro não chegará nunca e, tristemente, concordamos com Millôr Fernandes: o mal do Brasil é que o passado não passa.

November 11

Avalanhe

Lauro José Jantsch - Professor e Doutor em Biociências

Publicado em Zero Hora de 11.11.2005

           

               O futebol argentino chora até hoje dezenas de mortes e levou vários anos para proscrever a avalanche da torcida. Um comentarista argentino suplica que os gremistas não entrem nessa. Lamentavelmente, até a imprensa e um ex-presidente do clube, acham linda essa prática suicida. Depois, não adiante chorar.

November 05

Reflorestamento

Lauro José Jantsch  -  Professor e Doutor em Biociências

Publicado em Zero Hora de 08.11.2005

 

             O RS está atraindo vários projetos de produção de papel. Estes projetos incluem plantio de árvores como matéria-prima: eucaliptos ou outras espécies exóticas.

               Deve ficar claro que cultivo de árvores exóticas não é reflorestamento, mas florestamento. Reflorestamento é replantar a mata nativa do local. Então, o que estas organizações estão fazendo é florestamento de eucaliptos.

                A ampliação deste florestamento traz muitas conseqüências locais e globais. Estamos implantando no RS a 3ª grande onda de destruição ambiental: a 1ª foi a monocultura da soja na época da ditadura (começou a desertificação) e a 2ª foi a falta de tratamento dos esgotos do sistema Lago Guaíba (matamos o Guaíba).

              Alega-se que benefícios sócio-econômicos compensam perdas ambientais. Até posso concordar, apesar de pensar diversamente. Não se pode progredir a qualquer preço. Por 40 anos preguei em sala de aula o desenvolvimento sustentado: ecoturismo no Pantanal e na Amazônia.

              Será mais uma perda ambiental importante. É uma perda aqui, outra ali e assim os solos vão empobrecendo, a fauna e a flora desaparecem, desfaz-se o equilíbrio da natureza, aumentam a fome no mundo, o buraco de ozônio e os casos de câncer de pele, há um descontrole dos climas e um aquecimento global.

              Estes fatos são avisos de que o homem está gerenciando mal os recursos naturais. Estamos predando, exaurindo os bens naturais sem nos preocuparmos de que qualquer agressão à natureza tem seu preço.

              Concordo plenamente com a idéia de que a ecologia é a ciência da sobrevivência. Se a humanidade não preservar sua “moradia” será o fim do homem como espécie. Somos os únicos capazes de gerenciar os recursos naturais necessários ao equilíbrio natural e a nossa sobrevivência. O desenvolvimento não pode custar a sobrevivência da humanidade.

              Voltando aos projetos de celulose do RS, o licenciamento ambiental deveria não apenas exigir o cuidado rigoroso com os efluentes gasosos, líquidos ou sólidos, mas cuidar para que nossos filhos e netos não chorem a desertificação do RS como já choramos a morte do Guaíba.

              Sugestão: para que o dano ambiental seja minimizado, a cada 1.000ha de eucaliptos deveria ser plantado um capão de mata nativa de 100ha para servir de refúgio da flora e faunas locais.

October 28

Respeito à Pesquisa

Lauro José Jantsch  -  Professor e Doutor em Biociências

Publicado em ZH de 16/12/2003

 

        A queima criminosa de um laboratório de pesquisas da Universidade Federal traz à atualidade algo já previsto: a volta ao obscurantismo da inquisição.

                   O Professor Salzano, sabiamente, indica dois grupos de anticiência: aqueles com motivações religiosas e aqueles com motivações ambientalistas.

                   Com uma vivência de 26 anos de vida universitária e mais de 40 anos de magistério pude observar outro grupo de anticiência e que chamo de pseudointelectuais: aqueles que sobrepõem a ideologia à verdade. Pseudointelectuais, pois o verdadeiro intelectual segue a luz da verdade. É a sua única motivação.

                   Essa mentalidade, como na Idade do obscurantismo, tem sido uma das razões do atraso de nosso país. Basta analisar o episódio dos transgênicos. Para qualquer pessoa razoável é um problema técnico e, como tal, a ciência o resolve..Em nosso país, não: os órgãos técnicos, de pesquisa, são consultados, mas não decidem. Quem decide são bravatas político-ideológicas.

                   Temos um exemplo notável do atraso provocado pela promiscuidade entre ciência e ideologia: a antiga União Soviética. Até hoje estão tentando se recuperar do atraso na agricultura provocado pela proibição de pesquisas genéticas.

                   Um país que deseja progredir não apenas deve estimular as pesquisas mas deve dar completa liberdade para realizá-la. Somente a pesquisa gera novas tecnologias, novos empregos, novas riquezas. O cerceamento da pesquisa é sinônimo de pobreza e escravidão. Sim, porque se não dominarmos a tecnologia temos que comprá-la e eles fazem o preço e escolhem o quê liberar para o pedinte. Perguntem aos técnicos quanto o Brasil gasta em tecnologia importada.

                   Um lembrete àqueles que combatem a ciência por motivações religiosas: quanto mais perto estivermos da verdade mais próximos estaremos daquele que disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.  A ignorância não é um valor e Deus é a síntese de todos os valores.

                   Uma pergunta final: onde estão nossas entidades de pesquisa? Onde estão os Conselhos Regionais e Federais? Onde estão nossas Universidades que deveriam defender o “Ensino, a Pesquisa e a Extensão”? Estariam estas entidades escondidas sob a tradicional omissão?  Ou, talvez, estariam ocultas sob o obscuro manto da ideologia?   

                   Mais lamentável do que o preço dos aparelhos de é a perda ou falta de liberdade de pesquisa. A liberdade de pesquisa não tem preço.

October 19

Sociedade Permissiva

Lauro José Jantsch   -   Professor e Doutor em Biociências

Publicado em ZERO HORA de 17/4/2004

          

                  Nosso dia-a-dia está permeado de direitos. Não deixa de ser uma situação demagógica, pois os responsáveis pela educação da sociedade deveriam saber que a todo direito corresponde um dever. São realidades simétricas. O meu direito vai até onde começa o direito do próximo. Neste instante começa o meu dever. Normalmente, examinam-se as pessoas isoladamente e não no contexto social. Isoladamente, o homem pode ser recheado de direitos. Mas, socialmente, ele adquire outros tantos deveres.

               Sem dúvida, é muito mais agradável dizer a uma pessoa que ela tem direito a isso e aquilo. É antipático dizer que ela tem o dever de fazer isso e aquilo. Certamente, esta é a razão de a gente falar tanto em direitos e quase nada em deveres. Alguns exemplos ilustram facilmente esta situação. A Carta das Nações Unidas fala em Direitos humanos e não fala nos deveres humanos. Alguém já escreveu que a Constituição brasileira fala cinco vezes mais em Direitos que em Deveres. No Estatuto da Criança e do Adolescente encontramos a palavra Direito(s) citada 71 vezes e a palavra Dever(es) apenas 9 vezes. Um ilustre Senador da nossa República disse, dias atrás, que todo brasileiro tem o direito de compartilhar as riquezas produzidas no país; ele não disse quem tem o dever de produzir as riquezas para serem distribuídas. Curioso é que, dias atrás, ouvindo uma preleção de um rabino sobre um assunto bíblico ele só falou em deveres e em momento algum se referiu aos direitos dos filhos.

               Sem dúvida, essa é uma das razões de vivermos numa sociedade permissiva. Todas as pessoas estão cheias de direitos. Tudo é permitido. É proibido proibir. O aluno não pode ser reprovado, mesmo que não cumpra com seus deveres. Uma revista de circulação nacional publicou uma reportagem sobre pessoas que tomaram decisões acertadas em sua vida. Uma das pessoas citadas como exemplo foi uma atriz cuja decisão acertada foi ter feito aborto para não prejudicar sua carreira. Quer dizer, ela admite com a maior inocência um homicídio e, a sociedade permissiva, aceita como normal, nem protesta.

               Não devemos confundir permissividade com tolerância. O Padre Marcial Maciel LC, um dos grandes educadores dos tempos modernos, faz uma boa distinção entre tolerância e permissividade. Segundo este educador, devemos ser tolerantes respeitando a opinião alheia em matéria política, em assuntos de economia, em assuntos de religião; mas, quando se trata de prejudicar a dignidade humana ou os direitos fundamentais das pessoas, aí já é permissividade.

               Uma sociedade deve conhecer e ter seus direitos respeitados  mas não pode esquecer que a cada direito corresponde um dever. Fora disso temos a permissividade e esta é a mãe de todos os desmandos sociais.          

October 12

Arbitragem

Lauro José Jantsch  -  Professor e Doutor em Biociências

Publicado em Zero Hora de 07.10.2005

 

               Uma desconfiança levou a justiça a autorizar o grampo telefônico de um árbitro. Durante cinco meses gravaram 1.200 horas. Pergunta-se: por que não tiraram imediatamente este árbitro do sorteio? É lícito pensar-se que esperaram até que se configurasse uma vantagem a algum(ns) clube(s). E a solução já estava tomada, longe da solução alemã, da solução sulamericana ou da "imexibilidade" do resultado de campo.

October 05

O Nosso Guaíba

Lauro José Jantsch  -  Professor e Doutor em Biociências

             

                   “NÃO DEIXEM MEU RIO MORRER!”.

                   Já tivemos, em Porto Alegre, o Forum das Águas. Houve muita pompa e circunstância. Mas, terminado o evento, tudo continua “como dantes no quartel de Abrantes”.

               As novas gerações já estão aprendendo que o bem natural mais precioso é a água. É sinônimo de vida. No entanto, é um bem limitado. Pela disputa dela já temos guerras.

               A água perpassa por todos os ecossistemas. Sendo vida, deduz-se que ela vivifica todos os ambientes. O inverso também é verdadeiro: ela é  veículo da morte.

               O Rio Grande do Sul é muito bem servido de água doce. Porto Alegre recebe esta dádiva de forma generosa através de vários rios e fontes. Quer dizer, a natureza proporciona este bem de forma quase ilimitada.

               Mas, o que a natureza nos dá o homem teima em tirar. As pessoas com menos de 60 anos não imaginam o que era o Guaíba há 40 anos. No verão multidões ocupavam as praias ribeirinhas em vez de ir ao litoral (Praia da Alegria, das Pombas, Ipanema, Pedra Redonda e outras). Os pescadores, nas Barcas da Assunção, vendiam peixes vivos e a gente escolhia o melhor para assar ou rechear.

               Durante esses anos a qualidade de vida de Porto Alegre se deteriorou em vários aspectos, o mais preocupante é este: transformamos o Guaíba em esgoto a céu aberto.

               Pobre Guaíba! Até crise de identidade teve, foi rio, estuário e agora é lago. Isto é emblemático. Por falta de esgotos, o portoalegrense já havia contaminado o solo da cidade. Agora, estamos errando novamente: através dos esgotos estamos transferindo os poluentes e as doenças para o Guaíba. Qualquer pessoa sabe que fazer esgoto não resolve o problema: transferimos as doenças e os poluentes para o rio e, com isso, matamos o rio e dispersamos as doenças. Qualquer pessoa também sabe que, ao mesmo tempo que se instalam os esgotos, temos que pensar em recolhê-los e tratá-los antes de jogá-los no rio. Não temos o direito de matar o Guaíba. Ele não é de Porto Alegre, ele é da humanidade. Nossa obrigação é entregá-lo com vida às futuras gerações.

               Engraçado, certas pessoas se revoltam quando se derruba uma árvore exótica, prejudicial ao ecossistema, mas nada fazem contra o crime ambiental de matar o Guaíba. Onde está o Ministério Público que não atua contra tamanho crime ambiental? E os vereadores?  Para quê serve mesmo o Partido Verde?

               Perguntem ao DMAE quanto custa transformar esgoto em água potável. Perguntem aos biólogos e aos médicos quantas doenças estão “depositadas” no Guaíba. Juntando o dinheiro do tratamento da água e das doenças poderíamos construir estações de tratamento de esgotos, salvar o Guaíba e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Cada real empregado no tratamento dos esgotos produz uma economia de R$ 4,00  na saúde.

               Por enquanto, só podemos repetir com o suplicante refrão do cancioneiro gaúcho: “Não deixem meu rio morrer!”

September 21

Educação para o Trânsito

Lauro José Jantsch -Professor e Doutor em Biociências

 

               A tragédia de nosso trânsito tornou-se diária. Em relação a este problema parece que já estamos conformados, resignados, indiferentes. Parece já estar perdida a capacidade de indignação. Pela repetência das estatísticas a tragédia do trânsito já virou rotina.

               No entanto, várias autoridades de trânsito, vários órgãos de imprensa e outras pessoas continuam a indicar causas e soluções, todas altamente procedentes.

              O nosso Código Nacional de Trânsito e as autoridades enfatizam a necessidade de educar o cidadão. Perfeito. Só que, quando se trata de educação, não basta restringir (velocidade) e punir (multas). O educador necessita conquistar o educando. O motorista precisa sentir que tudo o que a autoridade de trânsito faz é para o bem dele. Então cria-se um elo de confiança e respeito. Estas duas qualidades darão a base para educar o cidadão. E, não é assim que acontece? Não. Hoje, o máximo que se houve é que “eles”(autoridade) têm raiva de quem tem carro.. Algumas sugestões para formarmos uma base de educação para o trânsito.

              Em primeiro lugar, a autoridade deve evitar generalizações:”motoristas assassinos”, o "gaúcho é o pior motorista do Brasil”, “os motoristas são irresponsáveis...”.A generalização condena os ótimos motoristas (maioria) e absolve os maus. Isso gera revolta, distância entre autoridade e motorista.

              Em segundo lugar, a autoridade de trânsito deve tomar medidas que venham ao encontro do motorista, pelo menos razoáveis, que tentem conquistá-lo. Em palavras mais simples, o nosso trânsito está cheio de medidas, no mínimo, antipáticas, quando não ofensivas ao bom senso. Nada irrita mais que a falta de bom senso. Ilustremos com alguns exemplos. Alguém que vai descansar na praia do Balneário Pinhal não pode ser submetido a um estresse de ter que levar entre 2h e 2h30min para percorrer 100km. É “sacanagem” construir a avenida Beira Rio para desafogar a Borges de Medeiros e aí, como primeira medida, colocar 30km/h (quebra-molas). Colocar 2 semáforos separados por 50m sendo que o 2º fecha antes do 1º é contrariar o bom senso, é  abusar da paciência do cidadão, é deseducar. O motorista aceita ser multado por jogar lixo na via pública, mas não aceita que  as fezes dos cavalos sujem a mesma. Ser multado por respingar água nos transeuntes é aceito como infração, mas e a Prefeitura que deixa as poças no pavimento? Limitar a velocidade na avenida Guaíba (Assunção) em 40km/h afronta qualquer lógica e, por isso, é um convite à transgressão. O motorista quer que a autoridade cuide da fluidez e da segurança do trânsito e sente-se um idiota quando houve esta autoridade comemorar a redução da velocidade em uma via de 10km/h para 8km/h ou quando só houve desta mesma autoridade o anúncio da colocação de obstáculos e mais obstáculos nas ruas.

              A autoridade de trânsito deve atrair o motorista para o seu lado. Não pode fazer o possível e o impossível para tê-lo como inimigo.     

 

September 05

A Nova Onda

Lauro José Jantsch  -  Professor e Doutor em Biociências

Publicado na ZERO HORA de 19/10/2002

              

                Recentemente, tem perpassado pela mídia uma “nova onda”: o culto da “escola da vida”. Que algumas pessoas cultuem a “escola da vida”, nada a estranhar, mas que essa idéia seja aceita e até defendida por alguns intelectuais, já é demais. Além disso, quando escrevem ou falam sobre a tal de “escola de vida” dão a entender que ela basta ou que até é mais importante ou superior do que ter uma faculdade, um mestrado ou doutorado. Falam como se um doutorado fosse algo depreciativo para a pessoa.

             Como diria o jornalista Paulo Sant’Ana, “calma lá”! As duas escolas não são excludentes, mas adicionais. Nada contra quem só tem a escola da vida. Mas tudo a favor de quem tem as duas. O que sempre pregamos aos jovens é que, além da escola da vida (compulsória), temos que lutar pela outra, i.é., pelo estudo, pelo conhecimento, pela pesquisa, pela tecnologia.

             É profundamente constrangedor que pessoas com cargos importantes, ou postulantes aos mesmos, dêem igual valor a uma “opinião” e a uma “lei científica”. Só a escola da vida não mostra a diferença entre uma “hipótese” e uma “conclusão científica”.

             Na escola da vida a pessoa apenas imita, copia o que as outras fazem ou fizeram.

             O Brasil necessita de pessoas que vão além. Precisa de pessoas que produzam conhecimentos, tecnologias novas, tornem o país “independente”. São essas pessoas que vão tornar o Brasil “independente” tecnologicamente. Hoje vivemos o século da escravidão tecnológica, intelectual. Aliás, cada nova tecnologia produz inúmeros empregos.

             Dentro do nosso sistema educacional, quem, por definição, produz conhecimentos, tecnologia, são as universidades com suas faculdades, seus mestrados e seus doutorados.

             Enquanto não acreditarmos que, além da escola da vida, existe outra escola, não sairemos da escravidão, mas continuaremos dependentes de países que “só” exportam conhecimentos. Enquanto prestigiarmos e acharmos suficiente a escola da vida, continuaremos a mandando milhões de dólares pela tecnologia estrangeira e continuaremos exportando nossos empregos para aqueles que sabem trabalhar nossa matéria-prima.

August 30

A Reforma Universitária e a Democracia

Lauro José Jantsch - Professor e Doutor em Biociências

 

                  De vez em quando se houve falar que a Reforma Universitária está na fase final. Por outro lado, pouco vaza além da discussão demagógica das quotas.

              Já foi dito que a reforma da universidade brasileira é a “Mãe das Reformas”. Os próprios alunos dizem: “Enquanto não se fizer a reforma da universidade o Brasil não mudará”.

              Quando se discute a universidade com pessoas isentas de corporativismo, alunos, ex-alunos, professores e ex-professores, surge outra unanimidade: o setor brasileiro menos democrático é a universidade. Para quem desconhece a universidade isto é espantoso mas, para os demais, inclusive os corporativistas, esta é a pura realidade.

              Sendo assim, este é o primeiro aspecto a reformar.

              A democracia deve nortear dois aspectos básicos da universidade: a gestão e o processo ensino-aprendizagem.

              É constrangedor o professor ter que explicar todos os semestres aos alunos questões como: o que é o grão-chanceler da universidade, quem elege o Reitor, por que os alunos e professores não participam da eleição dos Diretores? O planejamento estratégico não poderia receber participação dos alunos? A previsão orçamentária e a prestação de contas não deveria estar à disposição da comunidade universitária? O processo da escolha e demissão de professores não deveria ser mais transparente obedecendo a critérios técnicos?

               O segundo setor da universidade a ser democratizado é o processo ensino-aprendizagem. A montagem e a atualização dos currículos não pode prescindir da participação ampla, inclusive dos alunos. O calendário escolar e os cronogramas de aulas podem receber sugestões dos alunos. A metodologia de ensino não pode ser imposta, mas deve ser fruto de troca de idéias com os alunos. E os critérios de avaliação? Por que não discuti-los com os alunos? Num processo de ensino-aprendizagem democrático o aluno tem acesso à correção das provas para expor seus argumentos. Enfim, o mais importante, na sala de aula, é a atitude do professor, é o ambiente participativo criado por ele. Atitude democrática, por exemplo, é apresentar as várias teorias sobre um fato e não apenas uma. E dizer que a sala de aula de uma universidade, recentemente, ouviu a seguinte frase de um professor a um aluno que lhe fizera uma pergunta:”Cala a boca, na minha aula aluno não fala!” Este aluno, para poder se formar, passou o último semestre sem abrir a boca na sala de aula. Esta é a melhor maneira de formar cidadãos omissos. Isto é a antítese de universidade.

               Portanto, o primeiro passo para reformar a universidade é torná-la democrática. Desta forma deixaremos de ter uma universidade que só não é omissa na fabricação de diplomas para termos uma universidade formadora de cidadãos.

             

             

August 22

Universidade Pública ou Paga?

Lauro José Jantsch  -  Professor e Doutor em Biociências

Publicado na ZERO HORA de 20/5/1997

 

               Ultimamente, instalou-se em nosso país uma saudável discussão sobre se a Universidade deve ser gratuita para todos ou apenas para alguns.Todos estamos convencidos da importância do ensino. Sabemos que ele é a própria base do desenvolvimento moral e material de um povo. Por isso, os educadores estão sempre pensando e repensando a educação.

               É claro que a gratuidade universal do ensino universitário seria o ideal. Temos que convir que, nas nossas condições de miserabilidade social, isto não passa de uma utopia, por isso, sou de opinião que a universidade deve ser paga. Parece reacionário, discriminatório e antipático. Apenas parece. Examinemos algumas soluções.

               De acordo com a renda familiar, cada um pagaria uma certa porcentagem, desde nada até a totalidade do curso. Certamente, esse é um sistema de difícil execução, pois sabemos que a comprovação de renda familiar seria algo muito complicado.

               Prefiro uma segunda solução. O aluno, independente de sua renda familiar, quer estudar de graça? De graça, não. A sociedade vai financiá-lo através dos impostos. Para ser um profissional, ele vai usar dinheiro público, tirado de outras obras sociais. Então, este aluno está criando uma dívida para com a sociedade. Assim sendo, no final do curso, ele deverá devolver esse dinheiro sob forma de trabalho. Quanto deverá devolver? Devolverá o que não pagou durante o curso.

               O que acontece hoje, em muitos casos, é uma tremenda e injusta discriminação. Numa universidade pública, hoje, a sociedade paga para formar um médico. Esse médico se forma, monta um consultório e, aquele cidadão que pagou o curso do médico não consegue usufruir os seus conhecimentos, pois está muito longe de poder pagar uma consulta. Com o sistema ora preconizado não aconteceria isso. Caso o médico estudasse de graça, ele teria que devolver à sociedade atendendo de graça, durante um certo tempo e por algumas horas do dia, por exemplo, num posto do SUS. Esse tempo seria proporcional ao que ele deixou de pagar na universidade.

               As vantagens de um tal sistema seriam enequívocas, apenas para enumerar algumas: a universidade teria mais autonomia financeira, formaríamos profissionais com maior espírito de cidadania, o serviço público baratearia  significativamente o custo-Brasil e faríamos mais justiça social. Certamente, disporíamos de dinheiro para, pelo menos, auxiliar a maioria dos alunos das universidades particulares.

               Ao encerrar, gostaria de colocar, a título de reflexão, algumas questões. Dentro da realidade brasileira, quantos cursos gratuitos o cidadão teria o direito de fazer? Dentro da universidade, quantas vezes o aluno poderia trocar de curso? E se ele não exercer a profissão para a qual foi financiado? Uma pessoa já aposentada tem o direito de fazer, de graça, por diletantismo, um segundo curso numa universidade estatal?

 

August 18

Promiscuidade

 Lauro José Jantsch  -  Professor e Doutor em Biociências

 

            Uma das razões da atual crise política é a promiscuidade promovida entre o público e o privado. Entre as deficiências de preparo do partido governista é a de não entender que, uma vez eleito, Lula é o presidente do Brasil e não do partido dos trabalhadores. Todos os que deram a cara a bater disseram que se demitiram ou saíram do ministério para salvar o partido. Ninguém falou em preservar o país. Sempre mostraram que o partido está acima de tudo. Então, vale tudo, vale misturar dinheiro, misturar partidos.

            Esta mesma promiscuidade é a causa de outra grande decepção atual: a das elites intelectuais. Na época em que era chique ser PT parte dos intelectuais não pestanejou em submeter suas idéias, até sua produção intelectual, a uma ideologia político-partidária. Hoje se comprova que eram pseudo-intelectuais, pois nada caracteriza mais o intelectual do que a liberdade de pensamento. Nada pode escravizar o verdadeiro intelectual. Esta mesma promiscuidade levou os pseudo-intelectuais a aceitar, como vaquinhas-de-presépio, este simulacro de Reforma Universitária. Se perguntarem aos verdadeiros intelectuais, aos alunos e aos ex-alunos eles continuam dizendo: enquanto não se fizer a reforma da Universidade, o Brasil não mudará.

             A promiscuidade ideológica acabou com o sindicalismo. Um sindicato deve abrigar todas as tendências ideológicas. A preocupação de um sindicato deve ser com os filiados e não com ideologia político-partidária. Nas duas últimas décadas assistimos uma determinada ideologia político-partidária tomar de assalto todos os sindicatos. Foi o fim do sindicalismo. Prova disso é que estão tratando de uma reforma sindical. É patético ler-se um jornal de sindicato e constatar-se que é um veículo, exclusivo, de uma determinada ideologia político-partidária. É patético assistir um programa de debates políticos, seja na rádio, seja na TV, e o partido dos trabalhadores ser defendido pelo presidente da CUT. Se ele estivesse defendendo os trabalhadores, tudo bem, mas nem todos os filiados aos sindicatos ou à CUT pertencem ao PT. É a suprema ofensa à ética. Aliás, ética faz parte da preparação do cidadão, faz parte da educação e não é um simples blá-blá-blá.